Medo na medida

Posted on outubro 28, 2011

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Uma das coisas que mais me marcaram quando estava me preparando para entrar na carreira de tradutora freelancer foi o número de vezes que li em blogs de tradução diferentes que o tradutor deve cobrar valores compatíveis não com o mercado que se apresenta, mas com a vida que ele(a) quer ter. Ou seja, realmente colocar no papel suas despesas, investimentos previstos e dinheiro de reserva até chegar ao ponto de saber qual seria o “salário” ideal por mês, e daí calcular o quanto deveria cobrar por seu trabalho, levando em conta quantas horas por dia/dias por semana planeja trabalhar. Isso me marcou porque basta começar a procurar um pouco para ver que o que é oferecido por boa parte dos clientes (diga-se de passagem, agências) quase nunca corresponde aos valores que precisamos ou almejamos. E sempre há quem faça esses trabalhos, pois cada pessoa tem necessidades, filosofias de vida e vive em lugares com custo de vida diferentes. Ou simplesmente está mal informado mesmo. Quando eu trabalhava como CLT, cheguei a fazer o cálculo de quanto eu recebia por palavra, e era menos que a maioria das ofertas da Índia (notórios pelo pagamentos irrisórios que oferecem). Ao mesmo tempo, a vida freelancer é marcada pela incerteza, e nunca se sabe se haverá trabalho amanhã, então em períodos de vacas magras a tentação é grande em aceitar nem que seja esse tipo de oferta. Eu mesma já fiz isso, e aceitei trabalhos por valores irrisórios porque queria conhecer o mercado (nesse caso, de jogos de videogame, outro notório mal pagador). E justamente nesse que aceitei, além de ganhar pouco ainda levei 4 meses e muitas trocas de e-mails até conseguir receber. Ainda hoje, com agências com as quais trabalho, ás vezes recebo ofertas que considero baixas e aí tento negociar. Se dizem que “este é o orçamento, sinto muito”, respondo “sinto muito também, mas por esse valor prefiro investir meu tempo estudando” (há poucos dias disse exatamente isso para uma agência) ou algo do gênero. Exige jogo de cintura é verdade, a conta bancária é um caldeirão de emoções, mas é necessário, porque o estresse gerado por um trabalho mal remunerado também deve ser levado em conta. Um bom exemplo disso e que já aconteceu comigo: aceitar um trabalho desses porque estava há algum tempo sem um fluxo constante de trabalho e no meio receber uma oferta boa e ter que recusar porque não havia tempo suficiente para os dois. Tive que engolir e fazer o primeiro, e bem, porque uma vez comprometida a palavra, independente do serviço, é sua reputação que está em jogo e vão lembrar de seus erros, tendo você cobrado 0,02 ou 0,20 centavos por palavra. (Aliás, há uma ótima charge do Mox sobre isso)
Ainda é bem difícil passar dias e receber pouco ou nenhum trabalho, mas é aproveitar e enviar currículos, trabalhar na promoção do nome, estudar, enfim, não deixar a peteca cair. E manter contato com os colegas, principalmente, porque mais de uma vez fui “salva” por colegas que me recomendaram para trabalhos que eles mesmos não poderiam dar conta. E o medo que fique lá no seu papel atávico de deixar os sentidos alertas, mas não para permitir que o pessimismo reine, e sim para não deixar passar as oportunidades.

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